segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Have I told you there's no one above you?



Deito-me nos lençóis que estreaste, agarrada à camisola que vestiste. O teu cheiro penetra o meu interior e desperta em mim todos os sentimentos que tenho quando te vejo ou pressinto. Fecho os olhos, imagino-te ali ao meu lado, respirando junto ao meu pescoço, apertando-me contra o teu peito, onde oiço o bater ritmado do teu coração. Acho que nunca ouvi um batimento tão certo e forte, como se tivesses uma banda de percussão bem ensaiada dentro de ti. Ainda com os olhos cerrados, entrelaças, com força, as tuas pernas com as minhas e quase que parecemos as raízes seguras de uma árvore centenária, cobertas de terra e tão completas por se enredarem. Vais deslocando suavemente os teus dedos, entre os quais prendes mechas do meu cabelo, e fazes-me adormecer. No entanto, faltou o beijo sentido a que me habituaste e que a minha mente, por mais que tente, não tem a capacidade de recriar…falta-lhe sempre qualquer coisa (talvez seja o teu sabor ou a textura dos teus lábios. Existem falhas no meu subconsciente que nunca entenderei.). Sem o beijo, desperto rapidamente do sono que me ia consumindo lentamente e entendo que, na verdade, nunca ali estiveste desde o momento em que abracei a tua camisola, já amarrotada de todos os movimentos que a obriguei a fazer junto a mim. Sinto um vazio dentro no meu interior, algo me falta por não estares comigo neste dia de Verão, algo que me corrói e que, apesar de desaparecer com a tua presença, rapidamente me volta a assolar assim que bates a porta de minha casa. Sinto saudades.
De repente, a campainha toca três vezes e eu apresso-me a abrir. Não será correspondência, ou o toque teria sido comum aos outros andares. Abro a porta e presenteias-me com um sorriso e um olhar aconchegante. Chegaste, finalmente.
Beijas-me como não fazias desde ontem e, no meu interior, tudo o que estava oco, foi preenchido por ti e pela tua presença. Abraço-te. "Nunca deixes a saudade ocupar o teu lugar", sussurro entre os lábios, por fim.


domingo, 8 de agosto de 2010

Momento #13

A cadela, com pressa, pariu os cachorros cegos

quinta-feira, 25 de março de 2010

Dissertações aleatórias


Um copo de água nunca está meio cheio ou meio vazio. Está meio cheio e meio vazio, para que, na sua totalidade, possa ser chamado copo.
Assim o é, até porque na vida nem tudo é belo, nem tudo é sombra. É um misto, para que não nos cansemos de nenhum dos ambientes.

A minha, agora, é cansaço. Um extremo e profundo cansaço. Quero dormir. Quero? Quem? Mas quem sou eu? Ah, sono como te anseio!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Back to black

Sequei como um riacho num Verão quente e deixei de saciar os pássaros que me beijavam gentilmente.
É Dezembro e chove a potes. O riacho encheu e quem é vivo sempre aparece.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Momento #12


Perdi-me hoje para amanhã me encontrar. Negligenciei o facto de o amanhã nunca chegar e enfrentar todos os dias um novo "hoje", em que me volto a perder. Nunca me encontro, não existo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Quem é quem?

Natureza morta, cenário podre. É tudo o que os meus olhos conseguem captar e esta é a melhor forma de o descrever: cenário podre.
Por momentos, julgo que conheço o que vejo, penso que outrora fomos amigos íntimos ou mais que isso, penso que fomos o que já não somos.
Tudo o que o meu campo de visão abrange parece-me negro e morto, como flora queimada. E o intenso cheiro desagradável que o sentido da visão alastra para o olfacto e o silêncio cortante como uma lâmina e desafinado como uma guitarra empoeirada, que o odor transporta para a audição. Sabor? Esse não sinto, que há já muito que tenho na boca a sensação encortiçada do amargo da tua.
Que cena perturbadora. À medida que o tempo passa e que vou reconhecendo cada vez mais os traços da vista, desejo ter a capacidade de nunca mais voltar a ter esta percepção do horrível, da ausência de alma, do mal, do negro, de tudo aquilo que nunca quis ser.
Cenário podre, repito o pensamento. E tem mesmo que o ser, ao ponto de me fazer ansiar por uma vida rendida às cordilheiras do Braille.
Pestanejo, mexo um braço, apercebo-me do que vejo e quebro, choro, clamo e tudo o que vejo altera-se ao sabor das minhas atitudes, como se dançasse ao som da música da tal guitarra, de forma pouco coordenada e convidativa.
Espelho. Vejo-me a mim e já lá vai algum tempo desde a última vez. Que cenário podre este.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Momento #11

Olho atenta e fixamente. Guardo os momentos, como se tirasse fotografias instantâneas deles e as trancasse.
Faço-o com o que não quero perder, mesmo tendo consciência que a despedida pode ser inevitável.
Demoro-me... Na verdade, nunca gostei de me apressar, nem de que me apressassem. Queres saber? Estava a despedir-me com tempo e sem pressas e contei-te 20 sinais na face.