quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Momento #15

"(...)Se amor nos serve amor não dá de comer (...)"



Ornatos Violeta, "Notícias do fundo"


Engraçado que o filho da mãe, tal qual político faminto de poder, não nos ponha pão na boca, mas nos tire a fome...Isto há coisas!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Ambição (pouco) Natural

“Diz-me…o que queres tu da tua vida?”
“Quero poder percorrer o Mundo sem me perder, quero conhecer todos os cantos, os cheiros, os aromas, quero sentir o calor e o frio sazonais, quero luz…”
“Hm….”,
pensou Manuel por uns instantes, “Se tu queres tudo isso, posso dar-te rotas que tu podes mudar e ajustar de acordo com os locais que queres conhecer e posso dar-te a possibilidade de te guiares pelas estrelas, sem que nunca te percas, como foi teu pedido”
Bianca pensou por uns instantes: percorrer o Mundo guiada pelas estrelas, conhecer todas as culturas e seres, ver todas as cores que a Natureza tem para nos mostrar. Era tudo com que sempre tinha sonhado! Achou, no entanto, que Manuel tinha uma atitude demasiado benemérita…Dar algo tão precioso sem nada pedir em troca? Então, atacou com a pergunta: “Que queres tu para me dares tudo isso?”, “Nada. Considera-o como uma dádiva. Mas…nunca poderás retirar o teu pedido, nem mesmo quando ele deixar de ser vantajoso para ti! Nunca nenhum outro organismo teve essa hipótese e tu não serás excepção!”
Pareceu-lhe justo e resolveu aceitar.
Começou por visitar locais que nunca tinha tido possibilidade de ver senão em capas de revistas e filmes, saboreou todos os aromas e sentiu todas as fragrâncias existentes. A Natureza pareceu-lhe tão perfeita e estruturada! Viu animais de todos os tamanhos: desde elefantes a formigas que carregavam no seu dorso muito mais que o seu peso.
Certa noite, ficou obcecada com uma luz que insistiu em perseguir, confundindo-a com uma estrela especialmente brilhante. Seguiu-a e deparou-se com um cenário desolador: vermelho crepitante, lindo à vista, perigoso a todos os outros níveis, semelhante a um pedaço de astenosfera emergente; era como se a Terra a convidasse a visitar o seu interior e a conhecer os seus segredos mais obscuros. Bianca, qual Ícaro, aproximou-se demasiado…o suficiente para não poder seguir qualquer outra luz estrelar.
Por breves momentos desejou nunca ter aceite a proposta de Manuel que, inevitavelmente, a tinha levado àquele cenário. Lembrou-se que lhe era impossível e ouviu a voz do homem ecoar na sua cabeça: “Afinal, a traça só morre junto às lâmpadas porque não a distingue de uma estrela. Sim, a Natureza é perfeita e complexa, até na sua aparente estupidez.”

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Da janela conto as noites

Caso raro nos últimos tempos: Marta acorda com o zumbir do vento junto dos seus ouvidos e não com o Sol quente, fora de prazo, que lhe geralmente lhe queima a pele através da janela do seu quarto, que pouco mais revela se não a parede do prédio vizinho. Abre os olhos lentamente, com a sensação de que as pálpebras pesam mais que as responsabilidades que a esperava de pé e acordada. A sensação, agora, é de um cansaço profundo, como se o sono não a tivesse dominado durante as 8 horas anteriores.
Toca o despertador pela terceira vez consecutiva (aquele adiar estúpido e ridículo de mais 5 minutos, como se fossem fazer a diferença na tonelada que se fazia sentir em seus olhos). Levanta-se, cambaleando, e dirige-se à janela. Olha para o exterior, para a paisagem que esperava ver. Apercebe-se da imbecilidade que é olhar através de uma janela que apenas torna visível mais betão. Recolhe-se, novamente.
A caminho de uma outra divisão aleatória da sua casa, ainda oscilando com sono, Marta tropeça dos seus próprios pés, toscos, e deixa-se cair por inteiro. Não se magoa, por sorte. Levanta o corpo tosco e prossegue caminho.
Volta a olhar por uma outra janela, de uma outra divisão, que revela mais que parede e franze a testa. Estranha o escuro que vem de fora, de uma rua onde o vento continua a soprar. "Será já noite?", questiona-se, prontamente. Sim, tinha escurecido. Tinha passado mais um dia e não, as horas que se haviam passado não se resumiram a estes acontecimentos aparentemente sem sentido. Marta tinha desenvolvido outras actividades entre o acordar e o vislumbre da janela, entre este e a queda e entre a queda e o novo vislumbre.
A verdade é que estas situações pontuais e desinteressantes caracterizaram o seu dia e o de todas as pessoas que se dão ao trabalho de viver cada hora: acordou, errou, tropeçou, caiu, levantou-se, enfrentou o espelho do erro, deslumbrou-se, concluiu e, pouco depois, adormeceria, em busca de um novo dia seguinte.

sábado, 24 de setembro de 2011

Bem-Haja


A nuvem-mãe, maestra das mais barulhentas e violentas tempestades, luz do céu cinzento de dias frios, aparece aos olhos dos comuns em alturas mais tardias do ano. Guarda o espetáculo primoroso para a despedida e para a pouca vontade de sair à rua. 
Assim sou eu, trago comigo a tempestade de tempos seguidos ao calor e à pele salgada. Sentiram a minha falta?Pois foi para isso mesmo que me ausentei.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Momento #14

Cheira a terra molhada e a folhas caídas, o dia cada vez mais se assemelha à noite.
Já não correm beijos de brisas quentes e o Sol já não aquece a pele. Os dias passam e a mim agradava-me que tivessem mais algumas horas.
E, de repente, sem justificação, o quente volta e os dias de Outono metamorfizam-se.
No entanto, os cheiros e cenários permanecem... Quase que me enganavam!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Depressa e bem, não há quem.


07:25. Faltam exactamente 5 minutos para que deva sair de casa, a caminho do trabalho. A verdade é que só entra às 9 da manhã, mas o ritmo alucinante do trânsito obrigam a que adiante a sua partida.
Ainda sim, não se conseguiu decidir acerca da roupa a vestir. O calor infernal que se instalou não deixa saber qual a melhor combinação para suportar o suor a escorrer vertiginosamente junto ao corpo.
Quando, finalmente, se decide, às 07:37, sai de casa apressado, pois sabe que será o suficiente para apanhar mais trânsito que o costume.
Já sufocado na estrada, liga o rádio e o dia de hoje parece-lhe igual ao de ontem e a todos os da semana passada, pelo menos: fogos activos, fogos que estavam extintos e que agora estão activos, corrupção, fogos postos, alertas vermelhos devido às altas temperaturas, mortos, acidentes, doentes que ainda ficaram mais doentes, ao procurarem tratamento, poderosos que saem ilesos, casos de justiça arquivados, a notícia de que os Estados Unidos já voltaram a meter o dedo em assuntos que não lhes dizem o mínimo respeito, em vez de tentarem resolver os seus problemas.
Olha, desorientado, para todos os lados. As notícias da rádio enchem os seus ouvidos e começam a misturar-se umas com as outras, tal não é o cansaço de mais do mesmo logo pela manhã.
Desliga o rádio e olha para o exterior. Lá fora, um taxista de bigode insulta um outro condutor por uma pior execução de uma manobra e, mesmo sem este último lhe dar resposta, continua na sua roga entre dentes, acabando quase por afugentar o passageiro do banco de trás. Uma mulher deixa o carro ir abaixo e é logo alvo de piadas masculinas, como se o que aconteceu se prendesse com o facto de ela ser mulher.
Olha para o carro do lado. Uma mãe enterra a cabeça entre os braços, que tinha pousados no volante, como que implorando por dois segundos de descanso, ao mesmo tempo que, no banco de trás, duas crianças lutam pelo mesmo brinquedo e uma outra chora repetidamente e quase até não ter mais ar disponível para inspirar.
Finalmente, o trânsito começa a circular normalmente e a chegada ao trabalho é feita em 15 minutos. A camisa que tinha vestido pouco tempo antes, e apesar de ter viajado com o ar condicionado ligado, caso fosse torcida, era capaz de ajudar a mitigar alguns fogos a nível nacional. Da testa escorrem grossas pingas de suor, que rapidamente limpa com um lenço de papel.
Uma colega de trabalho aproxima-se e diz-lhe em tom de brincadeira “Sabes…ontem o meu filho perguntou-me porque é que, se a Terra gira em torno de si própria, nós não damos por isso. E eu não lhe soube responder!”. Ele, sem mostrar um sorriso ou quebrar o ar sisudo que tinha ganho, devido ao cansaço que já levava antes de pegar ao serviço, respondeu “Diz-lhe que temos mais que fazer. Estamos todos muito ocupados para reparar nas pequenas coisas.”

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Have I told you there's no one above you?



Deito-me nos lençóis que estreaste, agarrada à camisola que vestiste. O teu cheiro penetra o meu interior e desperta em mim todos os sentimentos que tenho quando te vejo ou pressinto. Fecho os olhos, imagino-te ali ao meu lado, respirando junto ao meu pescoço, apertando-me contra o teu peito, onde oiço o bater ritmado do teu coração. Acho que nunca ouvi um batimento tão certo e forte, como se tivesses uma banda de percussão bem ensaiada dentro de ti. Ainda com os olhos cerrados, entrelaças, com força, as tuas pernas com as minhas e quase que parecemos as raízes seguras de uma árvore centenária, cobertas de terra e tão completas por se enredarem. Vais deslocando suavemente os teus dedos, entre os quais prendes mechas do meu cabelo, e fazes-me adormecer. No entanto, faltou o beijo sentido a que me habituaste e que a minha mente, por mais que tente, não tem a capacidade de recriar…falta-lhe sempre qualquer coisa (talvez seja o teu sabor ou a textura dos teus lábios. Existem falhas no meu subconsciente que nunca entenderei.). Sem o beijo, desperto rapidamente do sono que me ia consumindo lentamente e entendo que, na verdade, nunca ali estiveste desde o momento em que abracei a tua camisola, já amarrotada de todos os movimentos que a obriguei a fazer junto a mim. Sinto um vazio dentro no meu interior, algo me falta por não estares comigo neste dia de Verão, algo que me corrói e que, apesar de desaparecer com a tua presença, rapidamente me volta a assolar assim que bates a porta de minha casa. Sinto saudades.
De repente, a campainha toca três vezes e eu apresso-me a abrir. Não será correspondência, ou o toque teria sido comum aos outros andares. Abro a porta e presenteias-me com um sorriso e um olhar aconchegante. Chegaste, finalmente.
Beijas-me como não fazias desde ontem e, no meu interior, tudo o que estava oco, foi preenchido por ti e pela tua presença. Abraço-te. "Nunca deixes a saudade ocupar o teu lugar", sussurro entre os lábios, por fim.


domingo, 8 de agosto de 2010

Momento #13

A cadela, com pressa, pariu os cachorros cegos

quinta-feira, 25 de março de 2010

Dissertações aleatórias


Um copo de água nunca está meio cheio ou meio vazio. Está meio cheio e meio vazio, para que, na sua totalidade, possa ser chamado copo.
Assim o é, até porque na vida nem tudo é belo, nem tudo é sombra. É um misto, para que não nos cansemos de nenhum dos ambientes.

A minha, agora, é cansaço. Um extremo e profundo cansaço. Quero dormir. Quero? Quem? Mas quem sou eu? Ah, sono como te anseio!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Back to black

Sequei como um riacho num Verão quente e deixei de saciar os pássaros que me beijavam gentilmente.
É Dezembro e chove a potes. O riacho encheu e quem é vivo sempre aparece.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Momento #12


Perdi-me hoje para amanhã me encontrar. Negligenciei o facto de o amanhã nunca chegar e enfrentar todos os dias um novo "hoje", em que me volto a perder. Nunca me encontro, não existo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Quem é quem?

Natureza morta, cenário podre. É tudo o que os meus olhos conseguem captar e esta é a melhor forma de o descrever: cenário podre.
Por momentos, julgo que conheço o que vejo, penso que outrora fomos amigos íntimos ou mais que isso, penso que fomos o que já não somos.
Tudo o que o meu campo de visão abrange parece-me negro e morto, como flora queimada. E o intenso cheiro desagradável que o sentido da visão alastra para o olfacto e o silêncio cortante como uma lâmina e desafinado como uma guitarra empoeirada, que o odor transporta para a audição. Sabor? Esse não sinto, que há já muito que tenho na boca a sensação encortiçada do amargo da tua.
Que cena perturbadora. À medida que o tempo passa e que vou reconhecendo cada vez mais os traços da vista, desejo ter a capacidade de nunca mais voltar a ter esta percepção do horrível, da ausência de alma, do mal, do negro, de tudo aquilo que nunca quis ser.
Cenário podre, repito o pensamento. E tem mesmo que o ser, ao ponto de me fazer ansiar por uma vida rendida às cordilheiras do Braille.
Pestanejo, mexo um braço, apercebo-me do que vejo e quebro, choro, clamo e tudo o que vejo altera-se ao sabor das minhas atitudes, como se dançasse ao som da música da tal guitarra, de forma pouco coordenada e convidativa.
Espelho. Vejo-me a mim e já lá vai algum tempo desde a última vez. Que cenário podre este.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Momento #11

Olho atenta e fixamente. Guardo os momentos, como se tirasse fotografias instantâneas deles e as trancasse.
Faço-o com o que não quero perder, mesmo tendo consciência que a despedida pode ser inevitável.
Demoro-me... Na verdade, nunca gostei de me apressar, nem de que me apressassem. Queres saber? Estava a despedir-me com tempo e sem pressas e contei-te 20 sinais na face.

domingo, 31 de maio de 2009

Oh like you were sixteen

A noite avançava com o tempo, lado a lado, e o manto azul tornava-se cada vez mais escuro. A Lua iluminava a beira-mar e as ondas vinham ao meu encontro - o som da sua aproximação não me deixava ser apanhada de surpresa. As estrelas brilhavam, sob a forma de pontos brancos, e notei que se agrupavam, dando origem a formas caricatas.
Deitei-me na areia e nelas distingui imediatamente um triângulo perfeito (que mundo tão geométrico o nosso!). E o som da rebentação das ondas, e o cheiro a maresia e os pés enterrados na areia húmida, parecendo esconderem-se de uma qualquer vergonha.
Aproximaste-te de mim, lentamente, e sentaste-te ao meu lado, com os joelhos ao peito. "Não sentes como o Mundo é perfeito?", disseste como que a deixar escapar as palavras entre os dentes; "Não é perfeito...é redondo. Se andarmos demais na mesma direcção, cairemos". Olhaste-me pensativo e voltaste a fixar-te no oceano. "Já imaginaste onde acaba o oceano?", voltaste a perguntar, assemelhando-te a uma criança na idade dos porquês. Não te respondi, simplesmente por não ter resposta alguma para te dar e sentir-me-ia estúpida por admiti-lo.
Levantaste-te de repente e inspiraste. "Sabes, o som do mar faz-me querer dançar" e esticaste-me a mão, a convidar-me para me juntar a ti na dança. Entreguei-te a minha e puxaste-me para junto do teu corpo. Encostaste o teu queixo à minha cabeça, apertaste-me a cintura e agarraste-me a mão, em forma de pega. "Fecha os olhos", disseste, "Dancemos..."; "Eu não sei dançar. Nunca o soube, tal como não sei onde acaba o oceano...". Desencostaste-te e olhaste-me nos olhos, sem medo. Riste-te simpaticamente. "O Oceano não acaba, expande-se cada vez mais. Daí que haja sempre música junto a ele. E a vantagem de o Mundo ser redondo é que tem uma rotação mais perfeita. Não precisas de saber dançar, agarra-me apenas... A Terra faz o resto e dançaremos até ao raiar do Sol."
E dançámos uma valsa, aos olhos da Lua. E dançámos até a Terra parar. E ainda dançamos.

sábado, 23 de maio de 2009

Momento #10

O golpe que desferiste violentamente sobre o meu corpo fez com que os doces rubis o abandonassem. Argumentas que o fazem lentamente e em pequenas porções e não deixas de ter razão. Porém, há algo pior do que morrer com uma palavra entalada entre os lábios como uma beata?
As pedras, assemelhando-se a um lençol acetinado, deslizam suavemente, em espiral, pelo copo de cristal que inclinas sobre mim.
Aproveita o teu vinho.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Lei do Desábito


A sua pele renegava o calor que sobre ela se abatia, tal como um anticorpo rejeita uma bactéria. Vinda de onde tudo era gélido e mórbido - o seu refúgio, a que chamava usualmente de casa -, o quente não era a sua sensação favorita. Sentia-se como que a derreter, a pele ardia e só lhe faltava crepitar para se achar a ferver no Inferno.
Os olhos fixavam-se nas ondas verticais que pareciam nascer do solo, como flores infinitas e curvilíneas, mas caducas como a sua própria vida.
Dentro do peito, onde já não batia nada senão um martelo de calçada (há muito que o órgão musculado tinha sido substituído por algo mais pesado, seco, crespo e que no interior não tinha nada, a não ser mais do mesmo), a um ritmo cada vez mais acelerado, apoderado por um mal-estar que se devia à exposição a um elemento desconhecido.
À sua volta, pelo que lhe parecia ver, o Mundo girava a uma velocidade vertiginosa, dando a sensação que estava preso à ponta da fisga de uma criança que, a qualquer momento, podia atirá-lo ao amigo de brincadeiras de rua. As imagens, em aparente contradição, eram desfocadas e lentas, como se se arrastassem pela linha do tempo, os sons eram distorcidos e fugiam da boca como saltimbancos da vida sedentária.
Os pingos de suor começavam a percorrer a sua face, ao mesmo tempo que a boca lhe parecia um deserto sem Oásis ao alcance. Pensou que estaria a perder, ao longo da face, todos os líquidos que neste momento escasseavam na sua boca. Um problema de equilíbrio que, no entanto, apenas lhe afectava a nível mental.
As pupílas contraíam-se e as lágrimas, por sua vez, abundavam nos seus olhos. Chegou então à conclusão que Oásis tinha dois, apenas deslocados do seu local normal (não que devesse ter os olhos na boca, ou tal significaria gula, o que Fátima não tolerava. Nenhum entre os sete, aliás).
Devido ao seu carácter ríspido e exigente, o verbo desistir nunca se tinha encontrado na decacentésima vigésima quinta página, na segunda coluna, na quadragésima segunda linha de um qualquer dicionário de bolso, mas agora que o seu corpo parecia estar desprovido de qualquer existência, aparentando ter sido abandonado por si própria, o verbo lutar é que afogou entre o suor. Deixou-se então cair no chão, tal qual uma árvore que cai na floresta, quando ninguém se encontra por perto.
A luz nunca lhe tinha criado tanta aversão. A luz nunca lhe tinha parecido tão forte e natural.
Insensível e aparentemente impenetrável, Fátima, que sempre vivera nas sombras, onde o Inverno durava, normalmente, 365 dias por ano, tinha enfrentado pela primeira vez o Sol. Presenciava, pela primeira vez na sua existência, a alteração da cor, do florido, da luz. Era então Verão, algo como nunca tinha visto. Mas tal demorou ela a perceber, assim como demorou a voltar a si. E ainda mais tempo do seu Verão demorou a ser encontrada, como uma carcaça deixada para trás por um predador - não sendo, porém, carcaça alguma. A cidade estava deserta e afinal, será que se ouve a queda de uma árvore, quando ninguém está por perto?

domingo, 5 de abril de 2009

Momento #9


O corpo é um artefacto ridículo, como as cartas de amor. E ambos nos aprisionam a alma, quando ela é como as cantigas.

domingo, 29 de março de 2009

Ver passar a vida faz-me tédio


O ambiente pesado na pequena vila fazia com que qualquer um se sentisse incomodado. Os sucessivos ataques à integridade e vida humanas tinham abalado a pacata sociedade de Izeda, como se a primeira letra do seu nome fosse vencida numa batalha e substituída pela primeira vogal. Sim, azeda. Era este o adjectivo que, neste momento, melhor caracterizava aquele lugar.
Naquela noite tinha havido um assassinato e o grupo de homens engravatados e fardados de azul continuava numa inquietação quase doentia.

Do outro lado da vila, Ester inseria, lentamente, a chave na fechadura da porta de sua casa. Um movimento cansado e que a fartava de tão repetitivo que se tinha vindo a tornar. Pisou o soalho de madeira cuidadosamente, em bicos de pés, com uma delicadeza tal que parecia caminhar sobre nuvens de Verão. Os seus cabelos ondulados e estonteantemente loiros caíam-lhe pelos ombros e iam de encontro às alças de um vestido vermelho, que acentuava as curvas do seu corpo de uma forma perigosa. Os carnudos lábios pintados de vermelho, complementados pelos olhos devidamente realçados, davam-lhe um ar irresistível. Na mão esquerda carregava um sobretudo preto e uns sapatos de salto da mesma cor, que havia descalçado com medo de fazer barulho. Na outra mão caíam-lhe, de forma desleixada, as chaves com que tinha aberto a porta. Toda aquela indumentária era propícia à provocação do sexo oposto, vertiginosamente sensual, tal como a personalidade associada ao seu nome faria prever.
Resvalou sobre uma cadeira, entregou o seu corpo a todo aquele sentimento de cansaço. Sentiu-se a adormecer e dirigiu-se à cama. Dormiu até ao nascer da maior estrela.

Analisaram a cena do crime. Para além de um cheiro a perda e a pútrido, do espaço ao mesmo tempo tão vazio de tudo e cheio de recordações e da própria vítima, não parecia haver nada de relevante ali. Por momentos, os investigadores desejaram que as paredes pudessem falar e acusar o responsável por tal desgraça.
Após várias horas de investigações inúteis do local, Edgar, um dos inspectores responsáveis pelo caso, reparou numa marca de saltos nas costas da vítima. Irrelevante. Seriam centenas as mulheres da vila e mais ainda os sapatos que teriam um salto do género. Desistiu. Recolheu todas as suas ambições e estreitou os seus horizontes, contrariando a sua própria origem etimológica. Selaram o local e desistiram, pois nunca teriam como encontrar culpados.

Ester levantou-se e olhou-se seriamente ao espelho, sem desviar o olhar e quase sem pestanejar. Os olhos encheram-se-lhe se lágrimas e o queixo tremeu repetidamente. Levou as mãos à testa e quebrou, deixou-se cair e soluçou de dor durante minutos a fio. Quando a fonte secou, ergueu-se e vestiu-se de luto. Sobre os cabelos colocou um lenço espesso, preto e colocou óculos pretos, como os que eram vistos a adornar a face dos que choravam a perda de alguém num velório. Não era possível reconhecer-lhe a cara.

Nas instalações das autoridades, sentiu-se, repentinamente, um odor feminino e sensual. Todos os homens se sentiram claramente atraídos e rendidos a tais encantos. Parecendo deslizar pela sala, entrou Ester, com a cabeça baixa e com uma mão a segurar o lenço junto ao pescoço.
Sentou-se e mandou chamar o inspector responsável pela tragédia que tinha ocorrido a noite anterior.
Edgar sentou-se diante dela. Sem lhe dar tempo para cortesias, Ester rematou "Fui eu, inspector. Fui eu...", "Foi você o quê?", "Fui eu a responsável pela tragédia de ontem", Quer que acredite que foi você quem cometeu uma barbaridades daquelas?", disse Edgar rindo, considerando a afirmação de Ester uma piada de má natureza. "Quero. Se não tivesse sido eu, como saberia então que ele tinha uma marca de salto nas costas? Deste salto", Ester colocou sobre a mesa os sapatos que tinha calçado no dia anterior. O inspector olhou-a incrédulo e, de forma a tentar tirar as dúvidas, disse "Foi você que matou o...?", ao que Ester, sem hesitar, respondeu "Sim, fui eu quem matou aquele cabrão. Nunca gostei dele e ele sempre me atormentou. Filho da puta do Tédio!"

quarta-feira, 25 de março de 2009

O passado é a chave do presente.

Irónico como a manipulação chove como água em pleno Inverno. Somos constantemente atacados por cartazes, notícias que invadem a nossa casa, sem utilizarem para tal uma porta ou janela, deduções ou acusações políticas, medidas que, quando são anunciadas, estão geralmente temperadas com hipérboles. Tentam subornar o nosso pensamento. Sim, tentam formatá-lo das nossas ideias e inserir aquelas que querem que sigamos.
Tantos são aqueles que já estão cegos e não vêm que as amarras já nos voltam a prender as pernas, como há 40 anos atrás. Não se trata só de apertar o cinto, trata-se de apertar isso que nos prende, até nos desmembrarem, até que não tenhamos mais força para nos erguermos.
E acreditamos, na generalidade, que estamos no bom caminho, que melhores dias chegarão, enquanto não nos apercebemos que a porta se fecha lentamente e deixa o último raio de luz do lado de fora. E ficamos impávidos, sem reacção. E deixamos que nos controlem. E deixamos que nos levem tudo o que temos. E deixamos que nos levem as palavras. E caímos na mesma esparrela dos nossos antepassados. E rezamos por uma chuva de cravos. E comemoramos no final. E tentamos construir um melhor sistema, mas a verdade é que colocamos sempre no lugar mais alto aqueles que depois nos espezinham e que nos inserem neste ciclo vicioso. A culpa é do actualismo geológico, é dos ciclos que enfrentamos a toda a hora, da cobardia que nos impede de lutar contra o que achamos estar incorrecto.
Porém, já dizia Andriano Correia de Oliveira, "O trevo tem quatro folhas, quatro sílabas liberdade" e a união...essa faz a força.

segunda-feira, 16 de março de 2009

And after all...






Nunca ninguém teve um sorriso mais puro