quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Momento #12


Perdi-me hoje para amanhã me encontrar. Negligenciei o facto de o amanhã nunca chegar e enfrentar todos os dias um novo "hoje", em que me volto a perder. Nunca me encontro, não existo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Quem é quem?

Natureza morta, cenário podre. É tudo o que os meus olhos conseguem captar e esta é a melhor forma de o descrever: cenário podre.
Por momentos, julgo que conheço o que vejo, penso que outrora fomos amigos íntimos ou mais que isso, penso que fomos o que já não somos.
Tudo o que o meu campo de visão abrange parece-me negro e morto, como flora queimada. E o intenso cheiro desagradável que o sentido da visão alastra para o olfacto e o silêncio cortante como uma lâmina e desafinado como uma guitarra empoeirada, que o odor transporta para a audição. Sabor? Esse não sinto, que há já muito que tenho na boca a sensação encortiçada do amargo da tua.
Que cena perturbadora. À medida que o tempo passa e que vou reconhecendo cada vez mais os traços da vista, desejo ter a capacidade de nunca mais voltar a ter esta percepção do horrível, da ausência de alma, do mal, do negro, de tudo aquilo que nunca quis ser.
Cenário podre, repito o pensamento. E tem mesmo que o ser, ao ponto de me fazer ansiar por uma vida rendida às cordilheiras do Braille.
Pestanejo, mexo um braço, apercebo-me do que vejo e quebro, choro, clamo e tudo o que vejo altera-se ao sabor das minhas atitudes, como se dançasse ao som da música da tal guitarra, de forma pouco coordenada e convidativa.
Espelho. Vejo-me a mim e já lá vai algum tempo desde a última vez. Que cenário podre este.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Momento #11

Olho atenta e fixamente. Guardo os momentos, como se tirasse fotografias instantâneas deles e as trancasse.
Faço-o com o que não quero perder, mesmo tendo consciência que a despedida pode ser inevitável.
Demoro-me... Na verdade, nunca gostei de me apressar, nem de que me apressassem. Queres saber? Estava a despedir-me com tempo e sem pressas e contei-te 20 sinais na face.

domingo, 31 de maio de 2009

Oh like you were sixteen

A noite avançava com o tempo, lado a lado, e o manto azul tornava-se cada vez mais escuro. A Lua iluminava a beira-mar e as ondas vinham ao meu encontro - o som da sua aproximação não me deixava ser apanhada de surpresa. As estrelas brilhavam, sob a forma de pontos brancos, e notei que se agrupavam, dando origem a formas caricatas.
Deitei-me na areia e nelas distingui imediatamente um triângulo perfeito (que mundo tão geométrico o nosso!). E o som da rebentação das ondas, e o cheiro a maresia e os pés enterrados na areia húmida, parecendo esconderem-se de uma qualquer vergonha.
Aproximaste-te de mim, lentamente, e sentaste-te ao meu lado, com os joelhos ao peito. "Não sentes como o Mundo é perfeito?", disseste como que a deixar escapar as palavras entre os dentes; "Não é perfeito...é redondo. Se andarmos demais na mesma direcção, cairemos". Olhaste-me pensativo e voltaste a fixar-te no oceano. "Já imaginaste onde acaba o oceano?", voltaste a perguntar, assemelhando-te a uma criança na idade dos porquês. Não te respondi, simplesmente por não ter resposta alguma para te dar e sentir-me-ia estúpida por admiti-lo.
Levantaste-te de repente e inspiraste. "Sabes, o som do mar faz-me querer dançar" e esticaste-me a mão, a convidar-me para me juntar a ti na dança. Entreguei-te a minha e puxaste-me para junto do teu corpo. Encostaste o teu queixo à minha cabeça, apertaste-me a cintura e agarraste-me a mão, em forma de pega. "Fecha os olhos", disseste, "Dancemos..."; "Eu não sei dançar. Nunca o soube, tal como não sei onde acaba o oceano...". Desencostaste-te e olhaste-me nos olhos, sem medo. Riste-te simpaticamente. "O Oceano não acaba, expande-se cada vez mais. Daí que haja sempre música junto a ele. E a vantagem de o Mundo ser redondo é que tem uma rotação mais perfeita. Não precisas de saber dançar, agarra-me apenas... A Terra faz o resto e dançaremos até ao raiar do Sol."
E dançámos uma valsa, aos olhos da Lua. E dançámos até a Terra parar. E ainda dançamos.

sábado, 23 de maio de 2009

Momento #10

O golpe que desferiste violentamente sobre o meu corpo fez com que os doces rubis o abandonassem. Argumentas que o fazem lentamente e em pequenas porções e não deixas de ter razão. Porém, há algo pior do que morrer com uma palavra entalada entre os lábios como uma beata?
As pedras, assemelhando-se a um lençol acetinado, deslizam suavemente, em espiral, pelo copo de cristal que inclinas sobre mim.
Aproveita o teu vinho.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Lei do Desábito


A sua pele renegava o calor que sobre ela se abatia, tal como um anticorpo rejeita uma bactéria. Vinda de onde tudo era gélido e mórbido - o seu refúgio, a que chamava usualmente de casa -, o quente não era a sua sensação favorita. Sentia-se como que a derreter, a pele ardia e só lhe faltava crepitar para se achar a ferver no Inferno.
Os olhos fixavam-se nas ondas verticais que pareciam nascer do solo, como flores infinitas e curvilíneas, mas caducas como a sua própria vida.
Dentro do peito, onde já não batia nada senão um martelo de calçada (há muito que o órgão musculado tinha sido substituído por algo mais pesado, seco, crespo e que no interior não tinha nada, a não ser mais do mesmo), a um ritmo cada vez mais acelerado, apoderado por um mal-estar que se devia à exposição a um elemento desconhecido.
À sua volta, pelo que lhe parecia ver, o Mundo girava a uma velocidade vertiginosa, dando a sensação que estava preso à ponta da fisga de uma criança que, a qualquer momento, podia atirá-lo ao amigo de brincadeiras de rua. As imagens, em aparente contradição, eram desfocadas e lentas, como se se arrastassem pela linha do tempo, os sons eram distorcidos e fugiam da boca como saltimbancos da vida sedentária.
Os pingos de suor começavam a percorrer a sua face, ao mesmo tempo que a boca lhe parecia um deserto sem Oásis ao alcance. Pensou que estaria a perder, ao longo da face, todos os líquidos que neste momento escasseavam na sua boca. Um problema de equilíbrio que, no entanto, apenas lhe afectava a nível mental.
As pupílas contraíam-se e as lágrimas, por sua vez, abundavam nos seus olhos. Chegou então à conclusão que Oásis tinha dois, apenas deslocados do seu local normal (não que devesse ter os olhos na boca, ou tal significaria gula, o que Fátima não tolerava. Nenhum entre os sete, aliás).
Devido ao seu carácter ríspido e exigente, o verbo desistir nunca se tinha encontrado na decacentésima vigésima quinta página, na segunda coluna, na quadragésima segunda linha de um qualquer dicionário de bolso, mas agora que o seu corpo parecia estar desprovido de qualquer existência, aparentando ter sido abandonado por si própria, o verbo lutar é que afogou entre o suor. Deixou-se então cair no chão, tal qual uma árvore que cai na floresta, quando ninguém se encontra por perto.
A luz nunca lhe tinha criado tanta aversão. A luz nunca lhe tinha parecido tão forte e natural.
Insensível e aparentemente impenetrável, Fátima, que sempre vivera nas sombras, onde o Inverno durava, normalmente, 365 dias por ano, tinha enfrentado pela primeira vez o Sol. Presenciava, pela primeira vez na sua existência, a alteração da cor, do florido, da luz. Era então Verão, algo como nunca tinha visto. Mas tal demorou ela a perceber, assim como demorou a voltar a si. E ainda mais tempo do seu Verão demorou a ser encontrada, como uma carcaça deixada para trás por um predador - não sendo, porém, carcaça alguma. A cidade estava deserta e afinal, será que se ouve a queda de uma árvore, quando ninguém está por perto?

domingo, 5 de abril de 2009

Momento #9


O corpo é um artefacto ridículo, como as cartas de amor. E ambos nos aprisionam a alma, quando ela é como as cantigas.