terça-feira, 10 de agosto de 2010

Depressa e bem, não há quem.


07:25. Faltam exactamente 5 minutos para que deva sair de casa, a caminho do trabalho. A verdade é que só entra às 9 da manhã, mas o ritmo alucinante do trânsito obrigam a que adiante a sua partida.
Ainda sim, não se conseguiu decidir acerca da roupa a vestir. O calor infernal que se instalou não deixa saber qual a melhor combinação para suportar o suor a escorrer vertiginosamente junto ao corpo.
Quando, finalmente, se decide, às 07:37, sai de casa apressado, pois sabe que será o suficiente para apanhar mais trânsito que o costume.
Já sufocado na estrada, liga o rádio e o dia de hoje parece-lhe igual ao de ontem e a todos os da semana passada, pelo menos: fogos activos, fogos que estavam extintos e que agora estão activos, corrupção, fogos postos, alertas vermelhos devido às altas temperaturas, mortos, acidentes, doentes que ainda ficaram mais doentes, ao procurarem tratamento, poderosos que saem ilesos, casos de justiça arquivados, a notícia de que os Estados Unidos já voltaram a meter o dedo em assuntos que não lhes dizem o mínimo respeito, em vez de tentarem resolver os seus problemas.
Olha, desorientado, para todos os lados. As notícias da rádio enchem os seus ouvidos e começam a misturar-se umas com as outras, tal não é o cansaço de mais do mesmo logo pela manhã.
Desliga o rádio e olha para o exterior. Lá fora, um taxista de bigode insulta um outro condutor por uma pior execução de uma manobra e, mesmo sem este último lhe dar resposta, continua na sua roga entre dentes, acabando quase por afugentar o passageiro do banco de trás. Uma mulher deixa o carro ir abaixo e é logo alvo de piadas masculinas, como se o que aconteceu se prendesse com o facto de ela ser mulher.
Olha para o carro do lado. Uma mãe enterra a cabeça entre os braços, que tinha pousados no volante, como que implorando por dois segundos de descanso, ao mesmo tempo que, no banco de trás, duas crianças lutam pelo mesmo brinquedo e uma outra chora repetidamente e quase até não ter mais ar disponível para inspirar.
Finalmente, o trânsito começa a circular normalmente e a chegada ao trabalho é feita em 15 minutos. A camisa que tinha vestido pouco tempo antes, e apesar de ter viajado com o ar condicionado ligado, caso fosse torcida, era capaz de ajudar a mitigar alguns fogos a nível nacional. Da testa escorrem grossas pingas de suor, que rapidamente limpa com um lenço de papel.
Uma colega de trabalho aproxima-se e diz-lhe em tom de brincadeira “Sabes…ontem o meu filho perguntou-me porque é que, se a Terra gira em torno de si própria, nós não damos por isso. E eu não lhe soube responder!”. Ele, sem mostrar um sorriso ou quebrar o ar sisudo que tinha ganho, devido ao cansaço que já levava antes de pegar ao serviço, respondeu “Diz-lhe que temos mais que fazer. Estamos todos muito ocupados para reparar nas pequenas coisas.”

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Have I told you there's no one above you?



Deito-me nos lençóis que estreaste, agarrada à camisola que vestiste. O teu cheiro penetra o meu interior e desperta em mim todos os sentimentos que tenho quando te vejo ou pressinto. Fecho os olhos, imagino-te ali ao meu lado, respirando junto ao meu pescoço, apertando-me contra o teu peito, onde oiço o bater ritmado do teu coração. Acho que nunca ouvi um batimento tão certo e forte, como se tivesses uma banda de percussão bem ensaiada dentro de ti. Ainda com os olhos cerrados, entrelaças, com força, as tuas pernas com as minhas e quase que parecemos as raízes seguras de uma árvore centenária, cobertas de terra e tão completas por se enredarem. Vais deslocando suavemente os teus dedos, entre os quais prendes mechas do meu cabelo, e fazes-me adormecer. No entanto, faltou o beijo sentido a que me habituaste e que a minha mente, por mais que tente, não tem a capacidade de recriar…falta-lhe sempre qualquer coisa (talvez seja o teu sabor ou a textura dos teus lábios. Existem falhas no meu subconsciente que nunca entenderei.). Sem o beijo, desperto rapidamente do sono que me ia consumindo lentamente e entendo que, na verdade, nunca ali estiveste desde o momento em que abracei a tua camisola, já amarrotada de todos os movimentos que a obriguei a fazer junto a mim. Sinto um vazio dentro no meu interior, algo me falta por não estares comigo neste dia de Verão, algo que me corrói e que, apesar de desaparecer com a tua presença, rapidamente me volta a assolar assim que bates a porta de minha casa. Sinto saudades.
De repente, a campainha toca três vezes e eu apresso-me a abrir. Não será correspondência, ou o toque teria sido comum aos outros andares. Abro a porta e presenteias-me com um sorriso e um olhar aconchegante. Chegaste, finalmente.
Beijas-me como não fazias desde ontem e, no meu interior, tudo o que estava oco, foi preenchido por ti e pela tua presença. Abraço-te. "Nunca deixes a saudade ocupar o teu lugar", sussurro entre os lábios, por fim.


domingo, 8 de agosto de 2010

Momento #13

A cadela, com pressa, pariu os cachorros cegos

quinta-feira, 25 de março de 2010

Dissertações aleatórias


Um copo de água nunca está meio cheio ou meio vazio. Está meio cheio e meio vazio, para que, na sua totalidade, possa ser chamado copo.
Assim o é, até porque na vida nem tudo é belo, nem tudo é sombra. É um misto, para que não nos cansemos de nenhum dos ambientes.

A minha, agora, é cansaço. Um extremo e profundo cansaço. Quero dormir. Quero? Quem? Mas quem sou eu? Ah, sono como te anseio!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Back to black

Sequei como um riacho num Verão quente e deixei de saciar os pássaros que me beijavam gentilmente.
É Dezembro e chove a potes. O riacho encheu e quem é vivo sempre aparece.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Momento #12


Perdi-me hoje para amanhã me encontrar. Negligenciei o facto de o amanhã nunca chegar e enfrentar todos os dias um novo "hoje", em que me volto a perder. Nunca me encontro, não existo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Quem é quem?

Natureza morta, cenário podre. É tudo o que os meus olhos conseguem captar e esta é a melhor forma de o descrever: cenário podre.
Por momentos, julgo que conheço o que vejo, penso que outrora fomos amigos íntimos ou mais que isso, penso que fomos o que já não somos.
Tudo o que o meu campo de visão abrange parece-me negro e morto, como flora queimada. E o intenso cheiro desagradável que o sentido da visão alastra para o olfacto e o silêncio cortante como uma lâmina e desafinado como uma guitarra empoeirada, que o odor transporta para a audição. Sabor? Esse não sinto, que há já muito que tenho na boca a sensação encortiçada do amargo da tua.
Que cena perturbadora. À medida que o tempo passa e que vou reconhecendo cada vez mais os traços da vista, desejo ter a capacidade de nunca mais voltar a ter esta percepção do horrível, da ausência de alma, do mal, do negro, de tudo aquilo que nunca quis ser.
Cenário podre, repito o pensamento. E tem mesmo que o ser, ao ponto de me fazer ansiar por uma vida rendida às cordilheiras do Braille.
Pestanejo, mexo um braço, apercebo-me do que vejo e quebro, choro, clamo e tudo o que vejo altera-se ao sabor das minhas atitudes, como se dançasse ao som da música da tal guitarra, de forma pouco coordenada e convidativa.
Espelho. Vejo-me a mim e já lá vai algum tempo desde a última vez. Que cenário podre este.