quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Welcome back home


O calor que a chama da lareira exala aquece-me. Um vento intenso lá fora, enrola o fumo no escape da chaminé e faz com que volte ao meu encontro. Cheira-me a madeira queimada e rapidamente associo esse cheiro ao chocolate quente e às saudades que dele já tenho; às minhas saudades tuas.
Recosto-me na cadeira, com um dedo a marcar o meio de livro que lia anteriormente, e fixo um ponto aleatório na imagem de um qualquer programa que está a dar na televisão. O lume morre e apresso-me a ateá-lo novamente, sem sequer ter tempo de me enterrar em pensamentos passados, e ainda bem. Olho agora fixamente para o fogo que consome a lenha, como um mendigo faminto e reconheço-me. Fogo, eu; lenha, tu. Podia consumir-te, calorosamente, enquanto te me desses, mas já não o fazes. Duvido até que alguma vez o tenhas feito.
O fumo que se foi acumulando na sala tornou o ar irrespirável, o que me leva a abrir a janela. Bonito paradoxo: acender a lareira com uma janela aberta, como que a criar um fluxo entre altas e baixas temperaturas, propícias a que contraia uma constipação ou qualquer outra maleita do género.
Paro e olho, reparo no choque entre o fluxo quente e frio e quase que os oiço a desferirem golpes violentos um sobre o outro. Arrepio-me de repente e fecho a janela. O frio venceu, tal como sempre. Na maioria das ocasiões é o pólo negativo que leva a melhor. Tu, levaste como certo o meu lado negativo.
Apetece-me uma caneca de chocolate quente. É bom ter-te de volta, como no primeiro dia, como se não te conhecesse.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Momento #6



A extinção do homem vai-se dever à banalidade da sua existência e ao facto de tentar desmitificar tudo. Quando não houver mais nada a fazer, rende-se à sua conduta animal e não sobrevive sem os seus engenhos mecânicos. O orgânico é passado desde que o homem é presente.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Always look on the bright side of life


Exercitamos dezenas de músculos constantemente. Do corpo de Joana, os mais desenvolvidos são, sem margem para dúvida, os cerca de 45 que contrai de cada vez que sorri. Sim, Joana sorri genuinamente.
É da opinião de que existe sempre um lado bom das coisas, todas as situações são dotadas de ambiguidade e cabe-nos a nós, portadores de livre arbítrio, escolher a opção que mais nos agrada e, mesmo que não seja a correcta, aproveitá-la e aprender com ela. É como construir um puzzle com peças que, apesar de não lhe corresponderem, têm as mesmas ranhuras.
A vida é tão mais bela quando a encaramos de forma aberta, sem medos ou tristezas, quando fazemos o que realmente queremos fazer. Que o diga Joana, que bem fez abertamente em tempos.
No entanto, actualmente, Joana não consegue sorrir como sorria. Apontam-lhe o dedo de cada vez que sorri de algo que as outras pessoas consideram menos boas, consideram-na inconsciente, inconsequente, imatura. Mas não o é.
Faz então jus ao nome e, tal como d’Arc, luta. E ergue-se vitoriosa, mas não de forma vistosa. Tentam fazer com que ande em círculos e nunca encontre a esquina iluminada a que pertence, mas traça rectas; umas perpendiculares, outras paralelas, no interior do círculo, e cria o seu próprio canto, a que dá um nome que nunca se conheceu.
Aí, onde realmente pertence, o seu sorriso é verdadeiramente avaliado. Lá encontra todos aqueles que perdeu e constata que estão num local melhor, e sorri; não encontra pobres ou menos afortunados, não há trocas monetárias, não há assassínios e, por isso, sorri. Ali, todos vivem em harmonia, como poderiam viver no mundo real, se não fossem todos tão agarrados àquilo que o primeiro olhar revela, ao empirismo.
Sempre que cerra os olhos e sorri, Joana pega num papel e escreve:

“Não sou eu que sou inconsciente, não sou eu que estou errada. O Mundo só desaprendeu a sorrir…e eu não. Aqui, estou em casa”

Entra e uma brisa quente beija-lhe as bochechas. Recebem-na de braços abertos e sem preconceito. Sorri. Sorri como se não tivesse habilidade para mais nada. E o dia nasce.

“A imaginação é a nossa maior arma, mas a única que sabemos usar é aquela que fere, não aquela que nos faz sorrir genuinamente.
Eu imagino tudo, encontro todos os que quero encontrar, aproveito a vida. Pena que devo ser a única.”

Diz para si quando abre os olhos, põe os pés no chão e enfrenta o Mundo real, aquele que a renega a si e às suas ideias. O Mundo daqueles que não vivem, só matam tempo.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Take a journey to the bright midnight


Sentado numa poltrona, escondido atrás de uma espessa nuvem de fumo, com um cachimbo castanho suspenso nos lábios, que fumega a cada vinte segundos como se tentasse engolir o Mundo, está Aquino. Pertence-lhe uma barba branca e de tal suave textura que só lhe falta estar presa ao céu por uma guita para ser nuvem. As rugas do seu rosto eram bem visíveis e ainda mais acentuadas ficavam quando franzia a expressão enquanto fumava. Fecha os olhos lentamente ao mesmo tempo que, cada vez mais, a nuvem cinzenta o absorve, tornando-o invisível aos olhos de outrem.
Chega-se então à frente ao ver à sua beira Leonilde, porém da cara do homem, o fumo nada mais deixa transparecer senão a ponta do cachimbo e um brilho quase apagado nos olhos. Com a ganância e medo de que o tempo acabe, Aquino inspira fumo para o seu interior, volta a expirá-lo e recosta-se no cadeirão. Lança uma gargalhada, claramente dirigida a Leonilde, quase inaudível ou gaga. Semicerra os olhos, tira o cachimbo da boca e profere calma e seguramente:
“Que estás aqui a fazer? Já não tiveste a tua oportunidade? Deixaste-a passar em branco? Não a aproveitaste? Deste-a num acto de bondade? Pois temos pena!
Eu ainda tenho muito trabalho pela frente e a fila de espera já chega ao centro da existência. Vá, vai para o fim da fileira! Não passes os mais necessitados e que ainda não tiveram encontro comigo à frente. Eu já te atendi! Já te acudi! Não tenho culpa que não saibas o que fazes às e com as coisas! Vamos, estás a fazer-me perder tempo e com tudo isto já podias estar um passo mais perto de cá voltares justamente!”
Leonilde não arredou pé dali e, antes que a nuvem de fumo, que se começava a dispersar, lhe deixasse revelar o rosto por inteiro, suga mais tabaco e liberta-o novamente pelo nariz. Levanta o sobrolho e, agora mais agitado e irritado, grita para a mulher:
“Não sejas invejosa! Isto tem que dar para todos! Muita sorte tiveste tu da primeira vez que cá estiveste! Não deste valor ao que te ofereci e jogaste tudo borda fora!
Vá, agora sê uma boa menina e hás-de voltar a ter a tua vez. Com sorte, pode ser que ainda seja nesta vida!”
Acabado de falar, pousa o cachimbo e deixa que a envolvente nuvem de fumo seja levada pela imensidão do nada.
Quando já desfeita a nébula, Leonilde olha atentamente para a poltrona que Aquino estava anteriormente a ocupar e constata que está vazia.
Aquino tinha desvanecido juntamente com o fumo de que os seus próprios pulmões desfrutaram e que as suas próprias vias respiratórias haviam libertado.
Foi então esta a última vez que viu aquele homem de tez clara, pele manchada pelo tempo, barba branca, cara enrugada e marcada pela vida, de cachimbo na boca e de olhar tão apagado quanto o pavio de uma vela em pleno dia. Foi a última vez que viu Aquino, o guardador responsável pela gavetinha da felicidade.

Momento #5

Para quê preocuparmo-nos em ser mais e melhor se amanhã, quando formos pó e cinza, cinza e nada, ninguém se lembrará dos nossos esforços ou, mesmo que estes tenham sido nulos, considerar-nos-ão mártires e uma grande perda para a sociedade? As pessoas contaminam o esforço com a sua hipocrisia disfarçada de bem-querer.
"Se és mais, eu não sou, porque amanhã já cá não estou" (Beijo = 1000 - Ornatos Violeta)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Momento #4

A cena não fica registada em mais sítio nenhum, sem ser em mim mesma. Revejo-a vezes sem conta, perco-me nela, despeço-me.
E o tempo continua a ser só nosso.

domingo, 14 de dezembro de 2008

The Feelings Disappear

Olhou para a parede e sentiu-a despida, invadida por um branco quase doentio. Assumiu-a como a sua tela, para a qual iria trespassar toda a sua virilidade, como se pingos do seu próprio sangue se tratassem, sob a forma de movimentos bruscos e repetidos e com o objectivo de enfatizar o espaço que era agora seu.
Misturou todas as cores que compunham o seu pensamento. Obteve uma parede amarela, como a fome que o consumia. Lembrou-se então da Natureza que tanto amava e a parede dividiu-se numa outra fracção verde. Cor de esperança. Cor que associava a algo que já não tinha fazia muito tempo. Desagradou-lhe aquela imagem, portanto. Juntou-lhe um pouco de paixão, paixão pela vida (mas de que lhe serviria a paixão, se no seu peito não guardava um coração?); misturou o azul do mar, porém, porque pintaria algo que retratasse o mar, se o mar nunca tinha visto, se o seu aroma nunca tinha lambido dos lábios, se o cheiro a maresia nunca lhe tinha sido dado a conhecer? Porque pintaria algo cuja forma desconhecia?
As lágrimas vieram-lhe aos olhos. Julgava-se uma pessoa dotada de sabedoria, mas nunca as ondas lhe tinham ido beijar os pés, nunca a Natureza lhe tinha roubado um sorriso, nunca a terra lhe tinha dado alimento, nunca a vida tinha sido vida para si.
Ia-se esvaziando à medida que transpunha toda a sua essência para a tela, que outrora tinha sido parede vazia. Pensou em manter um pouco do branco à vista, branco da paz. Seria hipócrita se o fizesse, pois a pomba branca era animal que nunca tinha feito parte do seu imaginário e, consequentemente, a palavra “paz”, era desconhecida no seu vocabulário que, mesmo sendo pouco vasto, era suficiente para descrever tudo o que o compunha.
As lágrimas contrariaram, então, a gravidade e borraram a pintura. Ao mesmo tempo, vestiu-a com um veio roxo, cor que o caracterizava de uma forma completa, simbolizando a tristeza. Porém, a única cor com a qual se identificava, perdeu-se, camuflou-se no meio de tantas outras que já vestiam a sua tela, sem que desse por isso.
Dirigiu-se para a outra ponta da área e sentou-se no chão a observar a parede branca, que já não o era. Olhou atentamente e verificou que o preto, que nunca tinha sido pintado, começava a surgir no local onde tinham caído as suas lágrimas. Alastrou-se como uma doença maligna, como os ramos de uma trepadeira por toda a pintura.
Franziu as sobrancelhas e fechou lentamente a boca, que se lhe tinha aberto quando o negro o invadiu. Então, o preto, que já se tinha apoderado de toda a parede e, portanto, de todo seu interior, foi-se convertendo num espaço vazio.
O medo do fim percorreu-lhe de alto a baixo, puxou os joelhos ao peito, segurou-os com as duas mãos e enterrou a cabeça no interstício que tinha ficado livre. Fechou os olhos.
Um vento fê-lo arrepiar-se, um cheiro característico despertou a sua atenção, um sabor salgado fez com que levantasse a cabeça. Abriu os olhos. Estava junto ao mar e uma onda veio beijar-lhe os pés. Por momentos, soube o que era o mar e a sua forma, teve esperança de poder permanecer naquele espaço de tempo para sempre, amou a vida com todo o coração que batia no seu interior, sentiu paz de alma, alimentou-se do momento.
Todas as cores estavam presentes, excepto o roxo da tristeza. Foi feliz durante um pequeno grande intervalo de tempo.
Arregalou os olhos e o negro voltou. Abriu-os e olhou em volta. Nada viu. O seu corpo estava desprovido de qualquer veste, o seu peito isento de coração, o tempo livre de esperança ou paz, o seu organismo estava limpo de alimentos e, no entanto, não latejava de fome. Na realidade, não tinha nada.
Na volta, foi tudo o que sempre tentou pintar, tudo o que sempre viu, tudo o que sempre foi: nada.

Quadro: Jackson Pollock