quinta-feira, 25 de março de 2010

Dissertações aleatórias


Um copo de água nunca está meio cheio ou meio vazio. Está meio cheio e meio vazio, para que, na sua totalidade, possa ser chamado copo.
Assim o é, até porque na vida nem tudo é belo, nem tudo é sombra. É um misto, para que não nos cansemos de nenhum dos ambientes.

A minha, agora, é cansaço. Um extremo e profundo cansaço. Quero dormir. Quero? Quem? Mas quem sou eu? Ah, sono como te anseio!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Back to black

Sequei como um riacho num Verão quente e deixei de saciar os pássaros que me beijavam gentilmente.
É Dezembro e chove a potes. O riacho encheu e quem é vivo sempre aparece.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Momento #12


Perdi-me hoje para amanhã me encontrar. Negligenciei o facto de o amanhã nunca chegar e enfrentar todos os dias um novo "hoje", em que me volto a perder. Nunca me encontro, não existo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Quem é quem?

Natureza morta, cenário podre. É tudo o que os meus olhos conseguem captar e esta é a melhor forma de o descrever: cenário podre.
Por momentos, julgo que conheço o que vejo, penso que outrora fomos amigos íntimos ou mais que isso, penso que fomos o que já não somos.
Tudo o que o meu campo de visão abrange parece-me negro e morto, como flora queimada. E o intenso cheiro desagradável que o sentido da visão alastra para o olfacto e o silêncio cortante como uma lâmina e desafinado como uma guitarra empoeirada, que o odor transporta para a audição. Sabor? Esse não sinto, que há já muito que tenho na boca a sensação encortiçada do amargo da tua.
Que cena perturbadora. À medida que o tempo passa e que vou reconhecendo cada vez mais os traços da vista, desejo ter a capacidade de nunca mais voltar a ter esta percepção do horrível, da ausência de alma, do mal, do negro, de tudo aquilo que nunca quis ser.
Cenário podre, repito o pensamento. E tem mesmo que o ser, ao ponto de me fazer ansiar por uma vida rendida às cordilheiras do Braille.
Pestanejo, mexo um braço, apercebo-me do que vejo e quebro, choro, clamo e tudo o que vejo altera-se ao sabor das minhas atitudes, como se dançasse ao som da música da tal guitarra, de forma pouco coordenada e convidativa.
Espelho. Vejo-me a mim e já lá vai algum tempo desde a última vez. Que cenário podre este.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Momento #11

Olho atenta e fixamente. Guardo os momentos, como se tirasse fotografias instantâneas deles e as trancasse.
Faço-o com o que não quero perder, mesmo tendo consciência que a despedida pode ser inevitável.
Demoro-me... Na verdade, nunca gostei de me apressar, nem de que me apressassem. Queres saber? Estava a despedir-me com tempo e sem pressas e contei-te 20 sinais na face.

domingo, 31 de maio de 2009

Oh like you were sixteen

A noite avançava com o tempo, lado a lado, e o manto azul tornava-se cada vez mais escuro. A Lua iluminava a beira-mar e as ondas vinham ao meu encontro - o som da sua aproximação não me deixava ser apanhada de surpresa. As estrelas brilhavam, sob a forma de pontos brancos, e notei que se agrupavam, dando origem a formas caricatas.
Deitei-me na areia e nelas distingui imediatamente um triângulo perfeito (que mundo tão geométrico o nosso!). E o som da rebentação das ondas, e o cheiro a maresia e os pés enterrados na areia húmida, parecendo esconderem-se de uma qualquer vergonha.
Aproximaste-te de mim, lentamente, e sentaste-te ao meu lado, com os joelhos ao peito. "Não sentes como o Mundo é perfeito?", disseste como que a deixar escapar as palavras entre os dentes; "Não é perfeito...é redondo. Se andarmos demais na mesma direcção, cairemos". Olhaste-me pensativo e voltaste a fixar-te no oceano. "Já imaginaste onde acaba o oceano?", voltaste a perguntar, assemelhando-te a uma criança na idade dos porquês. Não te respondi, simplesmente por não ter resposta alguma para te dar e sentir-me-ia estúpida por admiti-lo.
Levantaste-te de repente e inspiraste. "Sabes, o som do mar faz-me querer dançar" e esticaste-me a mão, a convidar-me para me juntar a ti na dança. Entreguei-te a minha e puxaste-me para junto do teu corpo. Encostaste o teu queixo à minha cabeça, apertaste-me a cintura e agarraste-me a mão, em forma de pega. "Fecha os olhos", disseste, "Dancemos..."; "Eu não sei dançar. Nunca o soube, tal como não sei onde acaba o oceano...". Desencostaste-te e olhaste-me nos olhos, sem medo. Riste-te simpaticamente. "O Oceano não acaba, expande-se cada vez mais. Daí que haja sempre música junto a ele. E a vantagem de o Mundo ser redondo é que tem uma rotação mais perfeita. Não precisas de saber dançar, agarra-me apenas... A Terra faz o resto e dançaremos até ao raiar do Sol."
E dançámos uma valsa, aos olhos da Lua. E dançámos até a Terra parar. E ainda dançamos.

sábado, 23 de maio de 2009

Momento #10

O golpe que desferiste violentamente sobre o meu corpo fez com que os doces rubis o abandonassem. Argumentas que o fazem lentamente e em pequenas porções e não deixas de ter razão. Porém, há algo pior do que morrer com uma palavra entalada entre os lábios como uma beata?
As pedras, assemelhando-se a um lençol acetinado, deslizam suavemente, em espiral, pelo copo de cristal que inclinas sobre mim.
Aproveita o teu vinho.