Irónico como a manipulação chove como água em pleno Inverno. Somos constantemente atacados por cartazes, notícias que invadem a nossa casa, sem utilizarem para tal uma porta ou janela, deduções ou acusações políticas, medidas que, quando são anunciadas, estão geralmente temperadas com hipérboles. Tentam subornar o nosso pensamento. Sim, tentam formatá-lo das nossas ideias e inserir aquelas que querem que sigamos.
Tantos são aqueles que já estão cegos e não vêm que as amarras já nos voltam a prender as pernas, como há 40 anos atrás. Não se trata só de apertar o cinto, trata-se de apertar isso que nos prende, até nos desmembrarem, até que não tenhamos mais força para nos erguermos.
E acreditamos, na generalidade, que estamos no bom caminho, que melhores dias chegarão, enquanto não nos apercebemos que a porta se fecha lentamente e deixa o último raio de luz do lado de fora. E ficamos impávidos, sem reacção. E deixamos que nos controlem. E deixamos que nos levem tudo o que temos. E deixamos que nos levem as palavras. E caímos na mesma esparrela dos nossos antepassados. E rezamos por uma chuva de cravos. E comemoramos no final. E tentamos construir um melhor sistema, mas a verdade é que colocamos sempre no lugar mais alto aqueles que depois nos espezinham e que nos inserem neste ciclo vicioso. A culpa é do actualismo geológico, é dos ciclos que enfrentamos a toda a hora, da cobardia que nos impede de lutar contra o que achamos estar incorrecto.
Porém, já dizia Andriano Correia de Oliveira, "O trevo tem quatro folhas, quatro sílabas liberdade" e a união...essa faz a força.
quarta-feira, 25 de março de 2009
segunda-feira, 16 de março de 2009
Momento #8
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
You have only been gone 10 days (...)
Fecho lentamente os olhos e sorrio. Volto a abri-los. Olho agora para as folhas de uma amoreira que se agitam ao sabor do vento, como que coreografadas durante anos a fio. Absorvo aquele momento (que aprecio da janela de uma camioneta pública), as caras dos que por mim passam e os cheiros que carregam consigo: o cheiro a novo, a perfume, o cheiro pútrido de uma vida menos abençoada, o cheiro a liberdade, a dor, a velhice, a experiência.Lembro-me que tenho que te contar que hoje vi um estranho peixe...metamorfizou-se nas águas. Mudou de cor à medida que eu o imaginava com cores diferentes, até que desapareceu quando me faltaram hipóteses e, não querendo repetir, não o voltei a imaginar com as suas características iniciais... Jogo então a mão ao bolso para te procurar e o terror espelha-se na minha face. Onde estás tu? Alterno as mãos, de forma cruzada com os bolsos, impacientemente, à tua procura. "Terei eu as calças rotas?", pergunto a mim mesmo. Mas não, rotas é coisa que não estão.
O meu coração bate aceleradamente, até que uma mão pousa no meu ombro. "De que estás tu à procura, Gonçalo?", "Da Lúcia. Ela estava no meu bolso das calças, tenho a certeza que estava... e agora não a encontro lá. Achas que fugiu de mim?", "Não tens as mesmas calças que tinhas ontem, j..." Interrompo-a antes que acabe a sua frase. Claro, as calças não são as mesmas, é natural que aqui não estejas. Que cabeça a minha! Relaxo então, pois sei que estás a salvo onde te deixei.
Desço na minha paragem e apresso o passo até casa. Não me quero esquecer do que tenho para te dizer. Abro a porta de casa e, sem antes me certificar de que esta ficou devidamente fechada, dirijo-me para o meu quarto, fazendo gestos repetitivos e viciantes com os dedos contra as coxas. Agarro numa tesoura, guardada do porta-lápis que me foi dado quando andava na primária (lembras-te?) e sento-me no chão, junto das calças que tinha vestido ontem e que tinha mandado negligentemente para o soalho frio. Rompo os pontos que tinha cosido à boca do bolso para não te deixar fugir e então conto-te tudo sobre o peixe e a dita mudança de cor. Não respondes, nem reages... Terá sido do frio a que eu mesmo te sujeitei? Então acrescento, como que para quebrar o gelo: "Lembras-te de te ter pedido para abandonares um sopro na concha que fiz com as minhas mãos? Libertei-o no bolso das minhas calças e cosi-o para te poder ter perto de mim... Este é o teu último fôlego, desde a última vez que te vi. E tive tanto medo de perdê-lo..."
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Momento #7
Irrita-me o romantismo hiperbolizado, o amor de geração espontânea, o uso ilimitado de expressões que outrora nos arrepiavam, a confusão de sentimentos, a constante explosão de acontecimentos, os passos apressados da baixa lisboeta, os metros cheios à hora de ponta, os jornais do dia, com letras gordas sobre futebol, os telejornais, o sofrimento exagerado, as declarações lamechas. Irritam-me aqueles que se fazem de vítimas, os fracos, os fracassados, os que nunca lutaram, os que nunca sequer se ergueram, os que julgam os outros sem motivos, os falsos moralistas, os namoros repentinos, o amor à primeira vista, os sorrisos cínicos, a hipocrisia social, as modas, as músicas que todos ouvem, os que tentam ser mais e melhor, não por si, mas para não fazerem má figura ao pé do amigo X ou Y.A mim, irrita-me o quotidiano.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Welcome back home

O calor que a chama da lareira exala aquece-me. Um vento intenso lá fora, enrola o fumo no escape da chaminé e faz com que volte ao meu encontro. Cheira-me a madeira queimada e rapidamente associo esse cheiro ao chocolate quente e às saudades que dele já tenho; às minhas saudades tuas.
Recosto-me na cadeira, com um dedo a marcar o meio de livro que lia anteriormente, e fixo um ponto aleatório na imagem de um qualquer programa que está a dar na televisão. O lume morre e apresso-me a ateá-lo novamente, sem sequer ter tempo de me enterrar em pensamentos passados, e ainda bem. Olho agora fixamente para o fogo que consome a lenha, como um mendigo faminto e reconheço-me. Fogo, eu; lenha, tu. Podia consumir-te, calorosamente, enquanto te me desses, mas já não o fazes. Duvido até que alguma vez o tenhas feito.
O fumo que se foi acumulando na sala tornou o ar irrespirável, o que me leva a abrir a janela. Bonito paradoxo: acender a lareira com uma janela aberta, como que a criar um fluxo entre altas e baixas temperaturas, propícias a que contraia uma constipação ou qualquer outra maleita do género.
Paro e olho, reparo no choque entre o fluxo quente e frio e quase que os oiço a desferirem golpes violentos um sobre o outro. Arrepio-me de repente e fecho a janela. O frio venceu, tal como sempre. Na maioria das ocasiões é o pólo negativo que leva a melhor. Tu, levaste como certo o meu lado negativo.
Apetece-me uma caneca de chocolate quente. É bom ter-te de volta, como no primeiro dia, como se não te conhecesse.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Momento #6
Subscrever:
Mensagens (Atom)



